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CARLITOS TINHA UM PLANO
Por Milly Lacombe.
Pacaembu. 1 de fevereiro de 2006. Eram jogados 43 minutos do segundo tempo quando o volante Xavier, do Corinthians, a fim de tirar a bola do campo alvinegro, deu uma bicuda pra frente. A essa altura o Timão já vencia o deplorável São Bento de Sorocaba por 5 x 0. A bola bicada foi cair no campo do São Bento, perto da bandeira de escanteio, ao lado da arquibancada verde do Pacaembu. Se seguisse sua trajetória normal, ia sair lentamente – e no tempo regido pela inércia – pela lateral do gramado. O lance, dada as circunstâncias da partida, era absolutamente inodoro e incolor. Mas não para o argentino Carlitos Tevez. Carlitos, que estava no meio de campo, achou por bem correr em disparada atrás da pelota, o que obrigou o zagueiro do São Bento, provavelmente muito contrariado, a fazer o mesmo. E lá foram os dois, rompendo atrás da bola. Para quem visse a cena e não soubesse do placar e do tempo de jogo a conclusão era uma só: aquela era a bola da partida. Carlitos, num pique que desconhecia a suposta exaustão dos quase 90 minutos de jogo, chegou antes do zagueiro. Mas a bola estava em cima da linha lateral, quase na bandeira de córner. E Carlitos, ainda em disparada. O argentino sabia, desde o momento em que saiu num tiro maluco em direção a bola, que, na improvável hipótese de alcançá-la, não haveria o que fazer. Isso, claro, para o observador menos atento. Porque o mais atento deve ter imaginado que Carlitos tinha um plano. Tinha que ter. Por que quem, em sã consciência, sai em disparada do meio do campo rumo a bandeira de córner para disputar uma bola perdida quando a partida esta ganha de goleada? Carlitos. Ao vencer o zagueiro na corrida e chegar antes na bola, o gringo pôde por em prática seu plano: deu um bico na bola, acelerou em dezenas de quilômetros por hora a velocidade de sua trajetória, e isolou a pelota para a arquibancada. Era esse seu plano. Simples assim. Satisfeito, voltou andando para o meio de campo. O lance, que deve ter passado desapercebido pela grande maioria dos presentes e dos telespectadores, diz toneladas de coisas a respeito desse argentino. Carlitos não faz isso por aplausos, para conquistar a torcida, para irritar o adversário. Carlitos faz isso porque tem marcado em seu DNA um tipo de garra diante da vida que poucos têm. Para, aos 43 do segundo tempo, disputar uma bola perdida em um jogo ganho por goleada é necessário ser um sujeito adoravelmente maluco e endiabrado. Carlitos é raça em estado bruto. Talvez, de todos os jogadores que já passaram pelo Corinthians, o que mais tenha a cara do clube. É apenas uma questão de justiça poética que ele tenha, romanticamente, aportado por aqui. * * * Pouca gente notou quando ontem, no Pacaembu, a organizada Camisa 12 expôs uma faixa com os dizeres: “Ricardinho: você voltou, mas nós não esquecemos”. A intenção da organizada era protestar contra o que, julgam, tenha sido uma traição ao time: a ida de Ricardinho para o São Paulo em 2003. Foi só a faixa ser aberta para um empurra-empurra com cara de quebra-quebra ganhar volume nas arquibancadas. Enquanto isso, no gramado, Ricardinho acabava com o jogo. * * * Para os quatro grandes paulistas, 2006 é o ano. Enquanto Palmeiras e Corinthians mostram suas garras, o São Paulo avisa que vai chegar junto. E o Santos, com Luxa no comando, é claro que não vai ficar atrás. Enquanto isso, no Rio, os times locais mostram que a única constante continua sendo a inconstância. A suposta máquina tricolor foi bisonhamente eliminada da disputa da Taça Guanabara, o Fogão garantiu a vaga na semi, mas perdeu do Ameriquinha, e Vasco e Flamengo já caíram. Escrito por BlogGol às 14h10
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![]() Escritora, jornalista, editora da Revista Tpm e comentarista do SporTV. Sua oração diária:" Deus proteja-me de seus seguidores e permita que o Timão vença a próxima". ![]() Escritor e psicanalista. Organizador do blog literário Blônicas no UOL. Sua oração diária: "Senhor, não atenda a segunda parte da oração da Milly". |