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A DOR DO CORNO
De Milly Lacombe. Ah, por que tinha que acontecer de gostarmos tanto de futebol? Por que não se entregar a outros passatempos, como xadrez, ping-pong, corrida de cavalos? Por que nos submeter, duas vezes por semana, ao sofrimento de não saber se, dali a 90 minutos, estaremos felizes ou tristes, morando no céu ou no inferno? Quinta-feira, 4 de maio, Pacaembu lotado. Em números oficiais, 35 mil almas. Mas quem esteve lá sabe que havia ali muito mais do que isso. Quarenta mil almas que entraram no estádio carregando nas mãos o coração. Olhávamos em volta e registrávamos olhares perturbados, amedrontados. Temos, os amantes de futebol, experiência com a dor da derrota. E, por isso, queremos a todo custo evitá-la. Quanto maior o clímax, maior o anticlímax. O gol precoce despertou os argentinos e criou uma perigosa displicência nos brasileiros. Na arquibancada, o povo anteviu o drama. Ah, a sabedoria popular. Se pelo menos fosse mais constantemente ouvida ... Gritos isolados pediam raça, pediam atitude, pediam que o time acordasse. Mas de nada adiantou a profecia. Três gols mataram a esperança, mataram o sonho, arrancaram o apaixonado torcedor do paraíso. E aí a frustração gerou uma reação visceral, incontida. E o povo, machucado, tentou invadir. A PM, a quem tanto se credita mérito, nada fez, a não ser descer a porrada em uma dúzia e rezar para que o povo desistisse. E a tragédia só não foi dantesca porque o povo de fato desistiu de invadir. Passado o ímpeto visceral de querer resolver a frustração na porrada, na ignorância, de forma primata e animal, caiu a ficha: o que estamos fazendo? E deram passos para trás, em direção à dor real, a dor da eliminação. Todos os amantes de futebol já sentiram na pele o que sentiu, na quinta, o torcedor corintiano. Não há exceção. Flamenguistas, são-paulinos, santistas, tricolores, palmeirenses, botafoguenses, gremistas, atleticanos ... todos. É a dor da derrota. A dor de saber que acabou. Que não tem mais. Pelo menos não agora. É a dor que só encontra equivalente no pé na bunda. A dor de acordar no dia seguinte e, antes mesmo de abrir os olhos, lembrar nitidamente da imagem do Coelho cabeceando para trás. De sentir novamente, e com a mesma intensidade, o frio na barriga quando percebemos, antes de acontecer, que o Betão ia fazer besteira, ia cabecear para frente, no pé do argentino. E a vontade de gritar “nãããããão!” outra vez. De querer que o tempo retroceda, de não querer sair na rua e ter que encarar o rival, de ser debochado. Porque a traição, o pé na bunda, às vezes nos poupa dessa crueldade, mas, nesse caso, no caso do futebol, todos na rua sabem que fomos traídos. Pelos 11 homens que representam nossa honra, nossa moral e, sem exagero, porque é isso o que sente o torcedor em uma final, nossas vidas. E o rival não poupa. Nunca poupa. Mesmo sabendo que, amanhã, será a sua vez de sofrer. Porque a beleza desse jogo é a certeza de que, aconteça o que acontecer, amanhã será outro dia. Exatamente como é a vida e suas incontáveis frustrações. Sempre haverá um outro dia. E o tempo passa, a dor pulsa um pouco menos forte, a imagem do Coelho cabeceando para trás vai ficando embaçada, e a vida segue. Dolorida, triste, cinza, mas segue. Até que, sem que nos demos conta de quanto tempo passou, estamos de novo dentro de um estádio, torcendo e gritando pelo manto que nos conquistou. Escrito por BlogGol às 11h05
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![]() Escritora, jornalista, editora da Revista Tpm e comentarista do SporTV. Sua oração diária:" Deus proteja-me de seus seguidores e permita que o Timão vença a próxima". ![]() Escritor e psicanalista. Organizador do blog literário Blônicas no UOL. Sua oração diária: "Senhor, não atenda a segunda parte da oração da Milly". |