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QUADRADO? QUE QUADRADO?

 

Por Milly Lacombe.

 

Não sei bem quem cunhou a expressão “quadrado mágico”, mas estou convencida de que é preciso parar de repeti-la. Antes de mais nada, porque é constrangedor continuarmos a usá-la, quase presunçosamente, para indicar que temos, entre meio de campo e ataque, quatro maestros batendo um bolão, movimentando-se com extrema agilidade e formando a tal figura geométrica. Kaká, tá certo, é esforçado, se movimenta com competência e tem um pulmão invejável. Mas não nos precipitemos a elegê-lo o nome da Copa porque, a rigor, é isso o que ele faz. E tem gente aí (o tcheco Nedved e o argentino Riquelme, para citar apenas dois, que faz muito mais do que isso). Ronaldinho Gaúcho é sim um mago da bola, mas um homem sozinho, e sempre marcado por três, não constitui um quadrado. Adriano quase não se mexe, está tecnicamente irreconhecível e não tem quem lhe sirva uma bola redonda. E Ronaldo, convenhamos, está completamente fora de forma, sem interesse e quase gozando com a nossa cara. Então, se eu não fosse brasileira e ouvisse a imprensa local falar em quadrado mágico, me sentiria a vontade para rir.

Aliás, quando esse tal quadrado mágico se comportou como um quadrado verdadeiramente mágico? Em jogo da eliminatória numa fase em que já estávamos classificados e que era fácil golear? Então não vale. Ou, se vale, tem time aí com quadrados muito mais mágicos. E não é preciso nem citar Espanha, Argentina e Repúplica Tcheca, que já mostraram ter no meio de campo e no ataque atletas criativos, em forma e tecnicamente brilhantes (o quarto gol da Espanha contra a Ucrânia foi absolutamente espetacular: troca rápida de passes, dribles bonitos, jogada dinâmica. Se tivesse sido marcado pelo Brasil, estaríamos todos ufanisticamente repetindo ‘que maravilha! Que beleza! Como jogamos bem!). Mas não é preciso citar gringos, já que apreciar o futebol estrangeiro e as qualidades dos atletas que não são brasileiros parece ofender muita gente. Busquemos, então, um exemplo interno. Se a seleção brasileira tem em Ronaldo, Adriano, Kaká e Ronaldinho um quadrado mágico, o time do São Paulo tem um hexágono ainda mais mágico. Quando Mineiro, Danilo, Alex Dias, Ricardo Oliveira e os laterais Souza e Junior trocam de posição de forma quase simultânea, jogam sem bola, fazem tabelas extremamente rápidas e mostram ao torcedor – até do time rival – que o futebol brasileiro tem ginga e ritmo, pronto, está formado um hexágono, esse sim, muitas vezes, mágico. E era mais ou menos isso o que esperávamos do nosso pseudo-quadrado: que nossos jogadores se alternassem caindo pelas pontas (a linha de fundo, aliás, está sendo solenemente ignorada pelo ataque do Brasil. Por que não usar as beiradas do campo, meu deus?), pelo meio da área, pela entrada da área. Com ritmo, graça e, por que não?, magia. Por tudo isso, jogando essa bolinha que estamos jogando, continuar falando em quadrado mágico está soando ridículo e arrogante.

Agora, se Juninho Pernambucano, em forma espetacular e cheio de recursos técnicos (bate falta primorosamente, desarma, arma, cai pelas laterais) entrar no lugar de Ronaldo, se Ronaldinho jogar mais adiantado, se Adriano melhorar apenas um pouco e se Kaká continuar com esse fôlego, aí sim poderemos ter, finalmente, um quadrado. E, quem sabe, mágico. Mas até lá, para que não façamos um papel arrogantemente constrangedor, melhor parar de repetir a expressão.



 Escrito por BlogGol às 11h21 [] [envie esta mensagem]






QUE TAL VER O JOGO DO BRASIL NA CROÁCIA?

 

Por Nelson Botter.

Minha decisão (tomada em cima da hora) de assistir Brasil e Croácia em Zagreb, plena capital croata, foi - no mínimo - ousada, uma vez que fui sozinho e sem conhecer ninguém. E tem mais: com a camisa canarinho em riste, afinal tinha certeza que encontraria mais brasileiros por lá, pois somos como formigas, estamos em todos os lugares.

Cheguei lá de trem, exatamente duas horas antes da partida. Rapidamente fiquei sabendo que haveria um gigantesco telão no centro antigo da cidade, repleta de edifícios históricos, igrejas, instituições, restaurantes e cafés. Poderia bater a pé o percurso, mas para não arriscar perder a hora do jogo resolvi pegar um funicular (tipo de bondinho) na Rua Tomiceva.

Enquanto eu me dirigia ao centro histórico, podia sentir a ansiedade das pessoas nas ruas, todas uniformizadas e demonstrando confiança numa boa apresentação contra o Brasil. Tentava conversar com algumas pessoas (os poucos que falavam inglês) e sempre sentia uma admiração e respeito pelo futebol brasileiro, mas não medo. Nesse instante percebi que o jogo não seria moleza como muita gente pensava.

Passando pela praça Ban Josip Jelacic, pude ver dois rapazes com a camisa da seleção brasileira caminhando. Ufa! Chega de ser patinho fora da lagoa. Desci do funicular e me aproximei. Cheguei com um sorriso, disse ser bom encontrar brasileiros na Croácia, mas os dois ficaram me olhando com cara de quem não havia entendido nada. Então, um deles falou algo em inglês com uma pronúncia esquisita. Eram croatas, que revoltados com o governo, torceriam pelo Brasil. Disseram até que já tinham comprado os uniformes de Japão e Austrália. Achei engraçado, já pensou isso aqui no Brasil? Impossível, né... Resolvi acompanhar os dois abrasileirados.

Chegamos no local do telão, a rua estava cheia de zagrebinos eufóricos e quando o hino croata começou, muitos não contiveram as lágrimas. No hino brasileiro todos quietos, admirando o forte esquadrão brasileiro em close no telão. Quando o juiz apitou o início da partida, todos comemoraram como se fosse um verdadeiro gol. Os dois croatas abrasileirados sopravam suas cornetas sob os olhos tortos da torcida croata. Três pontos amarelos num rio de camisas azuis.

Aos dois minutos um dos abrasileirados disse que ia comprar cerveja e se dirigiu para a parte de trás do telão. Não deu um minuto e o telão piscou. Todos ficaram apreensivos, como se pudessem adivinhar o que estaria por vir... Dez segundos depois um enorme estrondo se fez ecoar no centro histórico. Luzes e faíscas, pedaços do telão voando para todos os lados, princípio de incêndio na fiação e corre-corre.

Terrorismo? Que nada! As instalações de energia um tanto antigas não suportaram a carga exigida pelo telão... mas vai explicar isso para os croatas! Resultado: blackout na cidade inteira e - pior - era culpa dos "brasileiros"! Sim, pois aquele abrasileirado que foi perto do telão logo foi acusado de sabotagem, com cerveja e tudo.

Todos nos cercaram, enquanto o outro era carregado por dois policiais. Nossa sorte é que mais dois policiais abriram caminho na multidão e nos escoltaram (ou prenderam), evitando assim uma crise diplomática entre os dois países.

Pois é, meus amigos, agora aqui estou, em plena Croácia, sem luz nem comunicação, numa cela da cadeia junto com mais dois croatas revolucionários vestidos com o uniforme da seleção brasileira, desesperado para saber qual foi o resultado da partida. Brasil ganhou? Tomara...

É, maldita hora que não fiquei no Brasil curtindo o expediente mais curto e a comemoração nas ruas, a mais pura representação do jeitinho brasileiro. Aliás, falando nisso, alguém aí pode me indicar um bom advogado aqui em Zagreb?

Nelson Botter é cronista do Blônicas no UOL e nunca esteve na Croácia.



 Escrito por BlogGol às 10h08 [] [envie esta mensagem]






POR QUE O BRASIL NÃO VAI GANHAR A COPA

Por Milly Lacombe.

Seu Fernando nasceu no sertão do Piauí, há pelo menos seis décadas. Antes de completar um ano, perdeu pai e mãe. Sobreviveu porque é teimoso e, aos 15, se mandou para o Rio, onde o sol brilha sempre, mas a água não falta. Aprendeu a ler, e nada mais. Com 20 e poucos tirou carteira de habilitação e entrou para o serviço de frota de táxi. E assim vive até hoje, ainda no Rio. Me levou de um ponto a outro na semana passada. E foi nessa viagem que conheci sua história. Seu Fernando fala de política (odeia Lula e o PT), economia, literatura e, naturalmente, futebol com fartura. É um poço de sabedoria popular. E foi ele que me explicou por que o Brasil não vai ganhar a Copa.

O Brasil não vai ganhar a Copa porque levou para a Alemanha 23 celebridades, e não jogadores de futebol. Não vai ganhar porque nosso técnico, apesar de muito culto, capaz e hábil, está profundamente entediado com a rotina cinco estrelas de treinamentos/espetáculos. Aliás, nosso comandante já saiu daqui enfadado com seu ofício. Passou os últimos quatro anos sem fazer nada, a não ser ir de um canto a outro, em viagens cinco estrelas, assistir nossas celebridades jogarem além-mar. E agora, que terá que passar mais de 40 dias trabalhando de sol a sol, está de mau-humor. Mau-humor que é a moeda de troca nessa delegação. São 23 carrancudos. Quando brincam e fazem piadas, fazem entre eles, e, ainda assim, apenas para aparecer nas lentes das TVs, que os flagram quase 24 horas por dia, num tremendo bacanal bigbrotheriano. Sabem que estão sendo observados, e deixaram há muito a autenticidade em casa. São atores cumprindo seus papéis. Disputam cobranças de faltas para ver quem acerta a trave mais vezes, para entreter a platéia e, principalmente, para alimentar seus egos. Ganham por dia, entre contratos publicitários e salários, mais do que alguns de nós ganharemos a vida inteira. E, mesmo assim, reclamam que a vida é dura, é cheia de pressão – e de perguntas inadequadas. Essa seleção escolhe as perguntas que devem ser feitas a eles. Aceitam apenas os jornalistas que babam ovo. Nada de críticos. Afinal, são os melhores do mundo. E há de se ter respeito com eles. Por respeito, escalamos dois cones nas laterais. Cones que, em anos recentes, muito fizeram por nossa história esportiva. Mas, se é por dever histórico, deveríamos convocar Pelé desde 58 – e para sempre. Mas ai de quem ousar dizer que já não jogam como antes. Colocam as carrancas para fora e mostram suas garras. Ronaldo, aquele mesmo que em 98 protagonizou o mais misterioso dos acontecimentos em uma final de Copa do Mundo, visivelmente acima do peso, é o homem do humor-zero. Quando finalmente diz alguma coisa engraçada, fazendo referência ao apreço do Presidente por uma bebidinha, e deixando de lado, pelo menos por alguns minutos, a hipocrisia que impera nesse escrete e no mundo, depois faz média e avisa que vai votar no homem. E viva o puxasaquismo, viva a fama, viva o poder, viva a babação de ovo.

Enquanto estamos preocupados em alimentar e perpetuar nosso complexo de pitbull – que deu lugar ao antigo complexo de vira-lata, aquele que nos fazia baixar a cabeça antes de cumprimentar o adversário – nossos rivais são beneficiados pela falta de favoritismo. Cabe a nossos milionários da bola mostrar que são mais do que celebridades, são um time. Seu Fernando duvida que isso vá acontecer. Acha que o Brasil não vai driblar o próprio ego, que vai perder para a vaidade, vaidade que está cegando essa delegação de uma ponta a outra. Uma pena. Uma pena que uma geração tão talentosa saia de campo derrotada. E de nariz empinado. Porque, segundo nosso condutor, esses caras, esses 23 milionários entediados, não vão, nem assim, perder a pose.

Isso tudo dito, Seu Fernando pede licença para ir pegar outro passageiro. Aos 66 anos, precisa trabalhar diariamente para colocar comida na mesa. Mas disso não reclama. "Porque essa é a vida real, é a vida que enobrece, e me enche de dignidade. E é só isso que a gente leva daqui. Que se dane essa seleção".



 Escrito por BlogGol às 23h13 [] [envie esta mensagem]




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Escritora, jornalista, editora da Revista Tpm e comentarista do SporTV. Sua oração diária:" Deus proteja-me de seus seguidores e permita que o Timão vença a próxima".

Escritor e psicanalista. Organizador do blog literário Blônicas no UOL. Sua oração diária: "Senhor, não atenda a segunda parte da oração da Milly".
 
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