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AGORA É A HORA DE VERMOS SE PARREIRA É BOM LÍDER

 

Por Nelson Botter.

 

Parreira lançou um livro sobre gestão de equipes, um paralelo entre futebol e empresa, mostrando como se forma e gerencia equipes vencedoras. A sinopse diz que "ao longo da carreira, Parreira enfrentou as mais adversas situações, quebrou paradigmas e superou obstáculos. Lidar com os egos das maiores estrelas do futebol, adaptar-se às diferenças culturais das equipes e superar crises financeiras e políticas são apenas alguns exemplos das experiências que viveu e que o consagraram como modelo de superação e liderança".

 

Pois é, chegou a hora dele mostrar a todos que seus ensinamentos não são meras palavras ao vento. É inegável que a equipe melhorou com as modificações, é inegável que ele já sabia que isso aconteceria, é inegável que ele já esperava a pressão da opinião pública para que as mudanças fossem permanentes e é inegável que ele já esteja sofrendo a pressão das "estrelas" da equipe, repletas de egos, para que as alterações sejam desfeitas.

 

Não vai ser fácil administrar as estrelas e a opinião pública. Mas Parreira já sabia disso ao promover as mudanças no time, que a princípio seriam por cartões amarelos, e depois revelaram-se por outros motivos (afinal, Ronaldo e Robinho tinham cartão). É uma trilha que talvez não tenha volta para o técnico, pois se ele mantiver as alterações, agradará a opinião pública e formará uma equipe mais competitiva, entretanto terá membros importantes de sua equipe insatisfeitos e - provavelmente - dispostos a tumultuar o ambiente do grupo. Se voltar com o time anterior, no caso de fracasso será crucificado pela imprensa mundial e pelo povo brasileiro.

 

Com isso, é muito provável que Parreira chegue num meio termo. Emerson e Cafu devem ter sido poupados por causa do cartão amarelo mesmo e muito provavelmente voltam contra Gana. É difícil acreditar que Cafu sairá não só da equipe, mas também de sua posição de capitão e líder. Já Adriano e Roberto Carlos foram realmente sacados. Adriano por atrapalhar o jogo de Ronaldo e Roberto Carlos por não ser mais o de outros carnavais. Com isso, Zé Roberto pode dançar também, pois sua função é muito ligada a um "back-up" de Roberto Carlos.

 

No final das contas, concluo que as modificações são relacionadas a cartões sim, mas não só os tomados em campo. Para Adriano provavelmente foi vermelho, Robinho é titular pra ajudar Ronaldo, que se não tivesse ido bem, seria sacado. Resta saber se o de Roberto Carlos foi apenas um amarelo, do tipo "ou você joga, meu amigo, ou esquenta o banco". E pensando bem, é um amarelo geral, um aviso do gestor a todos seus comandados. É preciso produzir, senão modificações serão feitas. Nada de cadeira cativa na seleção. E, dado o recado, só nos resta esperar para saber se a sinopse do livro de Parreira está certa, quando diz que ele é um exemplo de superação e liderança. Pelo visto, fortes emoções aguardam o gestor Parreira...



 Escrito por BlogGol às 12h38 [] [envie esta mensagem]






POR QUE QUEREMOS ESPETÁCULO?

 

Por Milly Lacombe.

 

Dizem os idiotas da objetividade: dois jogos, duas vitórias, três gols marcados, nenhum sofrido. Do que reclamam os chatos e pessimistas? Tudo vai bem, o caminho para o hexa cada vez mais curto. Pode ser de fato que tudo vá bem. Mas os chatos e pessimistas devem ser explicados. Vamos lá. Talvez mais do que o hexa, mais do que sair pelo mundo mostrando as duas mãos para indicar que ganhamos seis vezes essa taça, o que o brasileiro quer é ver um bom jogo de futebol. E isso, não há um ser humano que possa negar, ainda não aconteceu. Então, a pergunta correta é: por que diabos queremos não apenas ganhar, mas jogar bem?

 

A resposta é um pouco mais filosófica do que parece. Somos, esse bicho homem, seres essencialmente livres. Está em nossa célula-mãe. Liberdade acima de tudo. Mas, o desenvolvimento econômico e social nos faz, cada vez mais, trocar liberdade por segurança. No mundo de hoje, as duas não caminham juntas. Ou uma, ou outra. O brasileiro, que vive nesse país abençoado mas extremamente desigual, faz essa escolha  todos os dias. Deixamos de sair de casa depois de uma certa hora porque é perigoso. Cercamos nossas casas com grades e aceitamos viver cada vez mais aprisionados em nome da segurança. Nos confinamos em relacionamentos acabados porque eles nos dão segurança social. E quando fazemos essas trocas estamos corrompendo uma de nossas características mais básicas: a liberdade. Não nos agrada a troca, porque no fundo ainda queremos liberdade, mas é o que podemos fazer diante do cenário atual: trocar segurança por liberdade.

 

A arte (e o futebol é uma das manifestações mais harmônicas de arte) é um dos poucos – talvez o único – reduto no qual a liberdade ainda vence a segurança. O nosso futebol, conforme entrou para a história, é o maior desses redutos: nele, a liberdade ganha de goleada. Trata-se de um bem-vindo resgate a nossa alma. Como se fosse uma vingança contra o caminho torto que a vida parece ter tomado. Se em nossas vidas não podemos fazer a liberdade vencer a segurança, dentro de um campo de futebol isso é possível.

 

Por isso, sempre que vemos o escrete jogar esse jogo careta, chato, burocrático, cheio de toques para o lado, respeitando uma estreitíssima obediência tática, sem criatividade, confinando o melhor jogador de mundo a uma posição aprisionada, sendo obrigado a marcar, sem liberdade temos vontade de gritar um sonoro “Nãããão! Aqui não!”. Queremos ver nosso futebol como o veículo da liberdade contra a segurança. Queremos que ele nos resgate, nos salve. Queremos ver o Ronaldo Gaúcho mandar essa rigidez tática às favas, ver o Zé Roberto se aventurar pela ponta esquerda, ver o tal quadrado se movimentar muito, usar a linha de fundo, trocar de posição constantemente. E não estamos vendo nada disso. Estamos em nossas casas assistindo ao jogo sentados no sofá. Não há um pingo de emoção e alma no toque de bola dessa seleção.

 

Agora, aos objetivos resta um consolo. Porque só uma coisa é pior do que jogar mal e ganhar: é não ganhar. Então, se tiver que ser assim, que pelo menos seja assim até o final.



 Escrito por BlogGol às 13h33 [] [envie esta mensagem]






VITÓRIAS SEM BRILHO NÃO INTERESSAM

Por Milly Lacombe.

OK, vencemos os dois jogos. Mas, falando francamente e sem ufanismo, a seleção não está jogando nada. Alguém está surpreso com isso? Se a resposta é "sim", eu pergunto: quando essa seleção jogou bem? Jogou para encantar? Nas eliminatórias? Não. Na Copa das Confederações? Talvez, mas só contra a Argentina. Para quem não se lembra, perdemos do México e empatamos com o Japão jogando sofrivelmente. Então, qual é a surpresa? Há muito nosso futebol privilegia o burocrático, o careta. Enquanto o resto do mundo tenta imitar nosso jogo bonito, buscamos imitar a obediência tática deles. Mas que brasileiro bom de bola quer ser taticamente obediente? Quem prefere o toque para o lado ao drible inesperado? E quem consegue responder a perguntas como:

Por que Ronaldo Gaúcho está jogando sacrificado fora de posição, no meio de campo, e não encostado aos centro-avantes, onde ele faz mágica?

Por que o Fenômeno continua titular mesmo fora de peso, de forma, de ritmo, de interesse? É lamentável e constrangedor ver Ronaldo em campo. Cenas como a épica furada de ontem entrarão para a história. Ronaldo talvez não precisasse disso no currículo.

Por que Cafu e Roberto Carlos são vitalícios de suas posições mesmo sem jogar rigorosamente nada? Não apóiam com eficiência, deixam buracos quando sobem e não voltam, não compõe o meio de campo como o futebol moderno exige.

Por que jogamos com dois centro-avantes bruta-montes mesmo sabendo que eles estão, há três anos, batendo cabeça e disputando um mesmo lugar no espaço?

Por que não vamos à linha de fundo com pelo menos dois dos integrantes desse tal quadrado mágico?

Por que não nos mexemos mais em campo?

Por que Juninho Pernambucano, um jogador cheio de recursos técnicos, que desarma e arma com a mesma eficiência, bate falta melhor do que ninguém, vai a linha de fundo, se mexe tanto quanto Kaká, está no banco?

Por que jogamos sem um meia de ligação? Gaúcho e Kaká não são, e nunca foram, meias-armadores. Tratam-se de dois bons meias-atacantes, o que é bem diferente. Sem um meia-armador de ofício (como Pernambucano e Ricardinho) fica difícil fazer a bola passar com leveza da defesa ao ataque. Ou vamos contar com Emerson para a função? Pelo amor de Deus.

OK, essas são todas perguntas legítimas. E perguntar não ofende. Mas experimente fazê-las ao Parreira se for macho. Nosso comandante, na minha opinião um dos melhores técnicos do mundo, anda muitíssimo mal-humorado. Ele e toda a delegação que saiu daqui em busca do hexa. Ô gente amuada. Cadê o ímpeto de campeão? Onde está a raça dessa seleção? Seriam eles mais estrelas do que atletas? Acreditam realmente que podem ser hexa sem treinar decentemente? Ou gostam mesmo é  do discurso de "somos os melhores do mundo e vamos provar isso em campo"? Quando exatamente eles pretendem provar isso?

Daqui da tela de minha TV, a atitude desse selecionado de celebridades me parece extremamente arrogante. Uma coisa é sair gritando ao mundo que somos penta e somos os melhores. A outra é entrar no campo, tratar a bola com carinho e suar a camisa. Isso, ainda não vimos. E estamos nos contentando em elogiar fartamente o único jogador desse time que corre pra lá e pra cá: Kaká. Estaríamos finalmente nos conformando com o ordinário? Ou o Brasil é muito mais do que um jogador esforçado, que se coloca bem, busca jogo e tem pulmões de aço? Na minha opinião, somos bem mais do que isso. Mas, por hora, é só isso o que temos. E na figura de um homem só.

Em cada esquina desse país existe um moleque de pele escura, roupas velhas e riso solto que faz mágica com uma bola nos pés sem que nunca tenha sido ensinado a fazer isso. Faz parte de nosso DNA. É por isso que jamais engoliremos vitórias sem brilho de futebol careta. É por isso que jamais engoliremos jogadores-celebridades, que dão entrevistas de cara amarrada, que respondem grosseiramente, que escolhem as perguntas que lhes devem ser feitas. Esses 23 homens na Alemanha são nosso exército da paz. Deveriam, além-mar, passar a imagem de quem somos: uma gente alegre, boa de ginga, de riso fácil, mesmo vivendo em condições que nem sempre são as mais adequadas. É no futebol que ainda mora nossa dignidade. É no futebol que viaja nossa boa imagem. Essa delegação que busca o hexa está pisando na bola com a nação brasileira. Vitórias sem brilho e com pose de arrogantes não nos interessam. Que a ginga e o bom humor entrem em campo e possam, pela sexta vez na história, nos salvar.



 Escrito por BlogGol às 13h34 [] [envie esta mensagem]




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Escritora, jornalista, editora da Revista Tpm e comentarista do SporTV. Sua oração diária:" Deus proteja-me de seus seguidores e permita que o Timão vença a próxima".

Escritor e psicanalista. Organizador do blog literário Blônicas no UOL. Sua oração diária: "Senhor, não atenda a segunda parte da oração da Milly".
 
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